Fala, Guerreiros!
Ao som do Dorsal Atlântica e sob o comando crítico de Carlos Vândalo — se você não conhece, ouça a sinfonia — vamos falar de um assunto que muita gente conhece, mas pouca gente gosta de discutir:
trabalhar para grupos empresariais e aquelas estruturas onde você nunca sabe exatamente quem é o seu verdadeiro empregador, ou ate sabe mais e obrigado a trabalhar para todos e só receber por uma.
Eu fui “vítima” de uma dessas estruturas.
Trabalhei como CLT em uma empresa que, segundo eles mesmos, fazia parte de um grupo empresarial, eu mesmo percebi e constatei um grupo empresarial. Mas não fui avisado que trabalharia para todas as empresas no objeto fim e só receberia por uma.
Um detalhe curioso: uma empresa atuava no varejo e outra trabalhava com produtos financeiros. Sistemas diferentes, integrações diferentes, operações diferentes.
Mas, segundo eles, tudo fazia parte do mesmo grupo.
Tudo bem.
Quando saí, cobrei aquilo que entendia ser devido.
Não fui atendido.
Então fiz o que qualquer trabalhador acredita que deve fazer:
procurei a Justiça.
E foi aí que veio uma das maiores frustrações da minha vida profissional.
Uma das pessoas que trabalhou comigo era justamente um colega que, durante o período em que estivemos na empresa, reclamava constantemente das horas extras.
Era comum ele pedir:
“Olha meu banco de horas aí. Quero saber quando eu vou receber e se vão pagar esse ano ou no próximo.”
Reclamava das horas extras, do banco de horas, do salário e das condições de trabalho.
E existe outro detalhe:
Eu era responsável pelo desenvolvimento dos sistemas.
Ele trabalhava na manutenção de computadores.
Não estou aqui para diminuir ninguém, muito menos o trabalho de ninguém. Cada profissional tem sua função e sua importância.
Mas o conhecimento técnico das atividades que eu desempenhava era completamente diferente.
Pois bem...
Quando chegou o processo, ele foi testemunha da empresa.
E aquilo que eu ouvia diariamente mudou completamente.
Na Justiça, a empresa passou a ser descrita como correta em tudo.
E existe um detalhe que, para mim, tornou a situação ainda mais curiosa:
no período em que entrei com a ação, esse colega mudou de cargo e foi crescendo profissionalmente dentro da empresa.
Coincidência?
Pode ser.
E claro que pode ter sido mérito dele.
Não questiono a capacidade, a vontade de aprender ou o esforço de ninguém.
Também não vou afirmar aquilo que não posso provar.
Mas posso afirmar o que aconteceu comigo e o que eu senti diante de tudo isso.
Eu aprendi a não confiar cegamente em quem reclama ao seu lado.
Porque, no ambiente corporativo, reclamar junto com você não significa necessariamente que essa pessoa estará ao seu lado quando chegar a hora de colocar a história no papel.
Principalmente quando existe um novo cargo, uma promoção ou uma oportunidade em jogo.
Então fica uma dica que aprendi da pior maneira:
Seja profissional. Seja ético. Seja cordial. Seja amigo. Mas não espere necessariamente o mesmo das outras pessoas.
Documente tudo.
Guarde e-mails.
Guarde mensagens.
Guarde registros.
Guarde documentos.
E não dependa da memória de ninguém.
Principalmente daquele colega que passa o dia inteiro reclamando da empresa, do salário e das condições de trabalho.
Porque, quando a situação aperta, você pode descobrir que a história contada por ele mudou completamente.
E tem mais.
Trabalhei muitas madrugadas.
Horas e horas.
Promessas foram feitas.
E, na minha percepção, aquilo não foi devidamente remunerado.
Não tive as folgas que esperava.
Não recebi as horas extras que entendia serem devidas.
Não recebi bônus que haviam sido prometidos.
E continuei trabalhando.
Estudando aquilo que ainda não sabia.
Lendo.
Relendo documentos.
Entendendo sistemas.
Resolvendo problemas.
Passando madrugadas trabalhando enquanto muita gente já estava dormindo.
Apresentei documentos, registros e outras provas que, na minha visão, demonstravam aquilo que eu estava alegando.
A empresa, inclusive, possui diversas reclamações públicas relacionadas a questões semelhantes.
Mesmo assim, para mim, as provas foram consideradas insuficientes.
E é aqui que entra a parte mais difícil dessa história.
Eu trabalhei. Eu fiz as horas. Eu estudei o que não sabia. Li e reli documentos. Passei madrugadas trabalhando. Não tive as folgas que esperava. Não recebi as horas extras como esperava. Não recebi os bônus que esperava. Apresentei o que tinha. E, ainda assim, não consegui o resultado que esperava da Justiça.
Essa é a minha experiência.
Não estou dizendo que todo processo é assim.
Não estou dizendo que toda empresa é assim.
E muito menos que toda decisão judicial seja injusta.
Estou dizendo que comigo não funcionou como eu imaginava que deveria funcionar.
E isso muda a forma como você enxerga as coisas.
Hoje eu não trabalho mais no modelo CLT.
Essa experiência negativa me fez não querer mais esse modelo.
Porque, depois de tudo que vivi, eu não quero depender novamente daquilo que considero uma relação onde muitas coisas ficam difíceis de mensurar, comprovar e cobrar posteriormente.
Minha escolha profissional foi seguir como PJ.
E aqui faço uma ressalva importante:
ser PJ não significa estar protegido de problemas e muito menos que seja melhor para todo mundo.
Mas, para mim, existe uma diferença fundamental.
Eu prefiro negociar diretamente:
o contrato,
as responsabilidades,
os valores,
os prazos,
as entregas,
e as condições de trabalho.
Se algo novo for solicitado, isso pode ser tratado como uma nova demanda, uma nova entrega e, consequentemente, uma nova cobrança.
Não existe aquela lógica de:
“Já que você está aqui, faz mais isso também.”
Ou:
“É só mais uma coisinha.”
Não.
É uma nova demanda.
E nova demanda tem que ser discutida.
Para mim, isso traz uma clareza contratual muito maior.
Foi uma escolha minha depois de uma experiência que me marcou.
E tem outra coisa que me incomoda ainda mais.
Hoje estamos discutindo Inteligência Artificial tomando decisões, analisando documentos e produzindo conclusões.
E eu me pergunto:
se uma IA consegue analisar um processo, por que ainda precisamos de juiz?
Calma.
Não estou dizendo que devemos simplesmente cortar juízes e desembargadores.
Estou provocando uma discussão.
Porque, se começarmos a substituir a análise humana pela análise automatizada, precisamos discutir quem será responsável pelo contexto, pela prova, pela contradição, pela testemunha e por aquilo que não está simplesmente escrito em uma linha de texto.
Uma imagem dentro de um documento.
Um contexto que aparece apenas quando se lê o processo inteiro.
Uma contradição entre dois depoimentos.
Uma mudança de comportamento.
Uma informação que parece irrelevante isoladamente, mas que muda completamente a interpretação dos fatos.
Isso é Justiça.
Ou pelo menos deveria fazer parte dela.
Não quero uma máquina simplesmente dizendo:
“Provas insuficientes.”
Quero saber:
insuficientes por quê?
Qual prova foi considerada?
Qual foi descartada?
Qual foi a relação entre elas?
O contexto foi realmente analisado?
A prova foi efetivamente compreendida?
E quem é responsável pela decisão final?
Porque, no final das contas, existe uma coisa que nenhum sistema deveria esquecer:
por trás de cada processo existe uma pessoa.
No meu caso, existe uma história muito simples:
Eu trabalhei.
Eu fiz horas.
Eu não recebi aquilo que entendia ser devido.
Fui à Justiça.
Apresentei minhas provas.
E não obtive o resultado que acreditava que deveria obter.
Talvez eu esteja errado em alguma interpretação.
Talvez a decisão esteja juridicamente correta.
Talvez minhas provas realmente não fossem suficientes.
Mas uma coisa ninguém pode tirar de mim:
a experiência que eu vivi.
E foi justamente essa experiência que me ensinou a documentar tudo, confiar menos em discursos e entender que, no mundo corporativo, reclamar junto não significa estar junto.
Então fica a minha dica, Guerreiros:
Trabalhe certo. Documente tudo. Leia seus contratos. Conheça seus direitos. Não dependa da palavra dos outros. Seja profissional. E, principalmente, não confunda colega de trabalho com aliado.
Porque, quando o problema chega...
Você pode descobrir quem realmente estava ao seu lado.
E quem só estava reclamando junto com você.
E essa foi uma lição que eu aprendi trabalhando.
Não foi em curso. Não foi em livro. Foi na prática.